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sábado, 11 de setembro de 2010

Data Venia



Recentemente, tive acesso ao livro Iluminismo Jurídico-Penal Luso-Brasileiro - Obediência e Submissão, de Gizlene Neder (Ed.Revan,2007). A autora fala sobre os períodos do renascimento e do iluminismo, em Portugal e no Brasil. Conta as particularidades que impulsionaram o desenvolvimento do pensamento jurídico, nos dois países.

Pouco depois, li a série de reportagens, na Revista Piauí nº 47 ( Data Venia, O Supremo) e nº48(Supremo, quosque tandem?), que falava sobre o cotidiano do supremo Tribunal Federal. Foi impossível, não lembrar de Gizlene. Pensando nas palavras dela, é possível entender um pouco o absurdo de, em uma mesma frase, conseguir chamar alguém de Vossa Excelência e dizer que ele tem capangas.

Vou destacar alguns trechos dos textos. Quem quiser aprofundar, pode ir atrás dos textos originais.

A "regra costumeira e singular", que não consta no regimento é a eleição [para presidente do STF] do mais velho (...) Porque simular ume eleição cujo resultado é conhecido? ´É uma coisa simbólica, que nos evita desgastes desnecessários´diz o presidente Cezar Peluso, sentado numa cadeira dos tempos do Império. Ela faz parte do acervo que estava no Rio. Trazê-lo a Brasília, antes mesmo da eleição, foi a primeira marca do estilo Peluso. (...) mobilizou primeiro a seção de documentação e acervo. Depois, acionou o departamento de arquitetura (há um, sim) para que redesenhasse a planta com os velhos móveis. (Piauí, nº47)

Sérgio Buarque de Holanda aprofundou a crítica aos bacharéis, ressaltando as possibilidades de notabilização, através de distinvos materiais ( anel de grau, diploma), que passaram a valer como autênticos brasões de nobreza. (Iluminismo Jurídico-Penal Luso-Brasileiro p.188)

Os primeiros que aparecem, antes mesmo de começar as sessões de julgamento, são os ´capinhas´, assim chamados por causa da obrigatória capa preta, curta sobre os ombros.
Os Ministros também são obrigados a usar toga. É uma capa de cetim preto, comprida sobre a roupa. (...) As togas ficam sob a responsabilidade dos respectivos gabinetes. Na prática, com os capinhas. Cabe a eles, nos dias das sessões, tirá-las dos armários, estendê-las sobre uma mesa de Jacarandá, no salão branco, adjacente ao plenário, e colocá-la nos ministros.
(...) É um cargo de confiança. Eles servem para tudo: puxar a poltrona quando as excelências vão sentar ou levantar, arrumar livros e processos que devem estar à mão, servir água , café ou chá, levar recados e bilhetes, resolver encrencas com computadores, documentos que faltaram e que tais. (Piauí, nº47)


O desprezo pelo trabalho manual e a valrização do trabalho intelectual, peculiares a uma sociedade aristocrática e, no caso do Brasil, fundada em relações escravistas, explica a exaltação e o prestígio do suposto talento, coberto pelo pálio do diploma universitário, como de resto, em toda a sociedade aristocrática. (Iluminismo Jurídico-Penal Luso-Brasileiro p.187)

À entrada dos ministros e também do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, numa fila puxada pelo presidente, todos se levantam. Se alguém esquecer, ou não estiver prestando atenção, os seguranças lembram. (Piauí, nº47)

(...) o processo de ideologização reproduz tal visão, numa reificação da superioridade e pefeição do saber jurídico, em relação a outros campos do saber, tornando-o distante e inatingível para a grande maioria das pessoas "comuns", submetidas ao processo de sacralização do poder e do saber. (Iluminismo Jurídico-Penal Luso-Brasileiro. p.80)

"A sessão de julgamento do Supremo é geralmente uma farsa, um teatro contraproducente", opinou o professor Hübner Mendes. Todos chegam com seus votos prontos e gastam horas apenas para lê-los em público". (...) Para o professor Hübner Mendes, há um "ambiente de academia de letras, no Supremo, marcado pelo pedantismo e a prolixidade: "Existe um apego à beleza literária e, sobretudo, à erudição dos votos e pouca atenção à especificidade dos fatos de cada caso."(Piauí, nº47)

De fato, segundo Sérgio Buarque de Holanda, não havia uma preocupação com o pensamento especulativo, mas à frase sonora, ao verbo espontâneo e abundante, à erudição ostentosa, à expressão rara. ( Iluminismo Jurídico-Penal Luso-Brasileirop.187)




ps: Dá pra mudar o quadro. Mas, é preciso que os novos juristas e que as novas instituições jurídicas desejem mudar. Se até quem é novo, ou quem está mais perto da população quiser copiar a sacralização, aí sim, fica difícil.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Ainda John Mill , Alexandre Morais da Rosa e Piauí


Desculpem, voltar a falar no filósofo inglês, em tão pouco tempo. Mas, os fatos se sucedem e aqui estamos. É só uma citação dele e após uma transcrição de um texto do escritor e juiz Alexandre Morais da Rosa. Os dois não concordam em tudo, mas neste ponto, parece-me que há convergência.

O Piauí? Na verdade é a Piauí. Alguém já leu a matéria daquela revista, que fala sobre os costumes do STF? Chama-se "Data venia, o Supremo". Quem não leu, é bom começar. Especialmente para ver o ridículo e medieval do formalismo.

"Pois se o teste for o facto de aqueles cuja opinião é atacada ficarem ofendidos, penso que a experiência demonstra que haverá uma ofensa sempre que o ataque for eficaz e poderoso, e que qualquer oponente que puxe muito por eles (e a quem eles tenham dificuldade em responder) lhes parecerá imoderado, bastando para tal que demonstre um sentimento forte sobre o assunto"

( John Mill. Sobre a Liberdade, Edições 70. Tradução pedro Madeira, 2006. p.101)

Agora, Alexandre Morais da Rosa. O original está aqui.

"Crítica Branda e Politicamente Correta.

No cenário jurídico brasileiro é um pecado dizer que o sujeito não está certo. Se o cara não fala um monte de "data vênia", que Vossa Excelência está equivocado, enfim, sem ser politicamente correto, os narizes se torcem, as pessoas não aceitam a crítica. Uma crítica branda, cheia de fru-fru é um dos motivos desta fraude da Jurisdição. A crítica precisa arder. Mostrar que os fundamentos (ou pseudo) são frágeis, equivocados, errados, até mesmo decorrentes de "anafalbetismo funcional". Fico impressionado com as respostas de gente que "fica de mal", se acha "ofendido", enfim, quer "carinho crítico". QUer se diga assim: não querido, vc poderia pensar diferente. Quem sabe se vc pensar assim, assim.... Não compartilho deste modo de pensar. É preciso "dar nos dedos" para que o sujeito, acima de tudo, vá estudar!!!!!!!!!!!!! Embora eu não acredite que vá. Ele irá se fazer de vítima, ganhando afagos de outros iguais. Confundem alteridade com condescendência."

Sobre a matéria da Piauí, eu vou escrever mais depois. Principalmente, porque no novo número da revista, haverá continuação. Até lá.