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domingo, 10 de outubro de 2010

Perderam, Mulheres.


A campanha para o 2º turno mal começou, mas, para as mulheres, parece que acabou. O palhaço Tiririca foi muito criticado porque não trazia propostas e escarnecia do congresso. Mas, o que está acontecendo? Continuam sem exisitir propostas e estão escarnecendo, agora, de vocês.

Os candidatos fazem cálculos e decidem, pragmaticamente, quem podem desagradar e quem não podem. Ou, mais ainda, quem é tão desmobilizado que pode ter suas bandeiras atacadas sem reagir. Mais ou menos assim: "se eu disser que gosto de pagode, posso perder os votos dos roqueiros... vale a pena? vou ganhar mais pagodeiros ou perder mais roqueiros?". Desse modo, ninguém tem coragem de assumir que é a favor da legalização das drogas, pois acha que perderá mais votos que ganhará. Em relação ao casamento gay, há posição dúbia, porque há dúvidas quanto aos efeitos políticos. Os homossexuais já estão equilibrando a queda de braço.

Agora, vejam como vem sendo tratada uma histórica bandeira feminista: a descriminalização do aborto. Foi feito o cálculo e se concluiu que há um desequílibrio total O grupo fraco, desmobilizado é o de vocês, mulheres. Ninguém quer defender o que só interessa a vocês, as únicas que suportam a gravidez indesejada, as que tão frequentemente criam os filhos sozinhas, as únicas, em fim, que podem abortar e que morrem por ter feito isto clandestinamente. Pelo contrário, todos evitam se vincular ao tema ou, no caso de Serra, tentam vinculá-lo à adversária.

É interessante porque PT, PSDB e PV sempre se posicionaram pela descriminalização do aborto. Dilma já falou nisto expressamente e o PT incluiu o tema no PNDH. Serra, quando ministro da Saúde, regulamentou o aborto em casos de violência e disseminou a pílula do dia seguinte. Aliás, o PSDB já apresentou proposta de lei, para a descriminalização. O PV tem isto no seu programa partidário, desde 2005.

Os três partidos diziam isto, porque sabiam, e sabem, que é uma questão de saúde pública. Eles sabiam, e sabem, que a criminalização não impede a prática, só que essa é feita através de métodos precários. Tratar o aborto como crime gera mais morte e não mais vida. Agora, todo mundo fica com o rídiculo e mentiroso discurso de que tem fé em Deus e defende a vida. Isto não tem nada com religião. Quem, por razões de fé, ou de consciência, entender que não deve abortar, manterá o direito de agir segundo os seus dogmas ou princípios.

A campanha de Serra é hipócrita e covarde porque "acusa" Dilma de defender o que ele mesmo e o seu partido defendem. A campanha de Dilma é hipócrita e covarde porque, ao invés de reafirmar sua posição e expor a mesquinharia do rival, tenta negar o óbvio. Em outras palavras, alia-se a Serra no abandono ao discurso feminista. O segundo turno representa um retrocesso, porque faz regredir a termos do século XIII, o debate sobre uma questão complexa e importante.

Quem defende a descriminalização não defende que as mulheres abortem. Apenas admite um fato: elas abortam, mesmo contra a lei. As que têm dinheiro vão para clínicas clandestinas. As que não têm, usam cabos de vassoura ou outros meios primitivos. Já que é assim, vamos permitir que tenham o mínimo de segurança. O único motivo real é a defesa da saúde das mulheres e não um bizarro e irracional desejo de matar criancinhas. Não se prega um estímulo à interrupção da gravidez, mas um desestímulo ao uso de métodos caseiros e perigosos para isto. É por isto que o PT de Dilma, o PSDB de Serra e o PV de Marina sempre fizeram esta defesa.

Mas, se o debate tem sido distorcido, a culpa é de vocês, mulheres, que assistem a tudo caladas. Os "matemáticos" dos partidos estavam certos. Como não se faz ouvir qualquer resposta, abrir mão de vocês não custa nada. Pela primeira vez, pode ser eleita uma mulher para a presidência, mas, e daí? Ela não assume as bandeiras feministas. O adversário não. é melhor neste aspecto Ele, além de também não assumir, ainda teve a iniciativa de trazer a discussão baixa que está aí.

Mulheres, acordem e deem algum sinal de vida. Façam os candidatos saberem que tem gente que cobra a coerência com a posição anterior. Ou, no mínimo, peçam que seja feita um diálogo sério sobre o tema. Pelo menos, participem da conversa e mostrem que saíram da cozinha. Vocês são mulheres do século XXI ou mulheres de Atenas? Como, sendo metade do eleitorado, podem permitir que sejam consideradas insignificantes? Até aqui , está claro que alguém perdeu no segundo turno. E foram vocês.

update: No debate do dia 10 de outubro, na Band, Dilma teve uma postura mais digna. Disse que quando uma mulher vai praticar um aborto, prefere oferecer assistência médica à oferecer a polícia. Serra manteve a contradição com o seu histórico e o do seu partido.




domingo, 15 de agosto de 2010

Acorda, Raimundo.

Vi no Antiblog de Criminologia um vídeo interessante sobre a diversidade sexual e a discriminação. Ele usa a estratégia de criar um mundo fictício, com a inversão dos preconceitos. A minoria no mundo real é retratada como maioria e pratica as mesmas violências que sofre normalmente. A idéia, clara, é, além do humor, fazer o algoz (que, na maioria das vezes não percebe que é assim) se sentir na pele da vítima e, ao mesmo tempo refletir no que faz.

Há alguns meses, tinha conhecido, em um curso ministrado pelo CEAFRO, coordenado pela acadêmica Vilma Reis, um curta nacional antigo que utiliza a mesma técnica. Chama-se " Acorda Raimundo... Acorda!". No caso, o tema é a violência de gênero. É estrelado por Paulo betti e Eliane Giardini.

Posto os vídeos. O segundo, como é maior, é dividido em 02 partes. Vale a pena conferir. E acordar.







sábado, 24 de abril de 2010

Carta Aberta a Duda


Salvador, 03 de maio de 2010.

Querida Dudinha,
Você não deve se lembrar de mim, pois só nos encontramos duas vezes, quando você era muito pequenininha. Meu nome é um pouco complicado, mas pode me chamar de Rafito.
A primeira vez que te vi, foi em um hotel, em Salvador, onde seus pais estavam hospedados. Creio que você tinha uns três meses. Não tinha cabelo ainda, mas usava uma fitinha, grudada na cabeça. Já era muito bonita e seu pai tentava, em vão, me convencer de que era a cara dele. Te carreguei no colo e você retribuiu, ao seu modo carinhoso, com uma angelical golfada na minha camisa. Sua mãe, pobrezinha, ficou envergonhada, mas sem razão. Eu achei muito engraçado.
Depois, te encontrei bem maior, já com seis meses, em outro hotel, dessa vez, no Rio de Janeiro. Seus pais é que me visitavam. Você vinha de uma consulta com o pediatra e sua mãe advertiu que o anjinho estava estressado. Eu te peguei nos braços novamente, um pouco receoso com a possibilidade de nova prova de amizade, talvez mais radical que a do primeiro encontro, pois você crescia e podia estar se aperfeiçoando. Dessa vez, porém, você me deixou ainda mais contente. Descobri que, mesmo sem conseguir ficar de pé, você adorava que te levantassem, para que ficasse pulando nas pernas dos outros. Enquanto fazia isto, você ria, de um jeito tão bonito que deixaria qualquer um feliz. Principalmente, alguém com a camisa intacta.
Estou escrevendo, Duda, porque nunca esquecerei de você. Acontece que você é a prova viva de uma das mais lindas histórias de amor que já existiram. Enquanto mulher, você é uma privilegiada e, certamente, entenderá isto mais tarde.
Sabe, Duda, você nasceu em um tempo de muita hipocrisia. Ninguém admite ser racista e poucos confessam que são machistas, mas há preconceitos por todos os lados. Creio que você não teria problemas com racismo, pois é branquinha e tem os olhinhos azuis. Mas, quanto ao machismo, seria, certamente, uma vítima potencial.
Eu disse que seria, porque, pelo menos na sua casa, você escapou disto. Vou te contar um pouquinho da história dos seus pais. Eles se conheceram no Rio de Janeiro, onde viviam, e logo se apaixonaram. Resolveram que viveriam juntos para sempre, porque se amavam e lutariam por isto, se preciso fosse.
Os dois são muito inteligentes e começaram a estudar para concursos. Sua mãe foi aprovada na seleção para ser juíza, na Bahia. Teria que vir para uma cidadezinha no interior, na qual para comer um pouco de presunto, era necessário viajar cerca de 200 kilometros. São umas 500.000 Dudas empilhadas. É muito longe! Bem maior que o seu quintal! Maior até que a casa dos seus avós e o que o parquinho onde você brinca!
Seu pai largou o emprego e foi com ela. Você não tem idéia do valor desta atitude. Hoje, Duda, todo mundo acha normal que a mulher acompanhe o homem aonde ele for trabalhar, mas o contrário é um escândalo. Apesar de a lei jurar que todos são iguais, continuamos achando que é o marido que trabalha fora, enquanto a esposa cuida das crianças. Até se admite que ela trabalhe também, mas apenas para auxiliar o senhor e chefe da casa.
Pois seu pai não se importou com nada e foi assim mesmo. Garanto que amigos, inimigos, conhecidos, desconhecidos, fofoqueiros em geral, e até parentes criticaram um bocado. A maledicência deve ter tomado duas linhas: uma afirmar que ele não era “macho” e a outra assegurar que ele era um aproveitador. As duas, fruto de um preconceito imbecil e da mais profunda ignorância.
Se homens e mulheres têm direitos iguais, ambos são do lar e ambos são da rua. Não existe mais chefe de família, ou qualquer hierarquia na casa. Os dois são fortes e os dois são frágeis. Os dois riem e os dois choram. Ambos se sujeitam aos mesmos sacrifícios, inclusive o de acompanhar o outro, se for melhor para a família.
Foi por isto que o grande homem, de fibra e valentia, que é o seu pai desafiou o mundo. Ele tinha ao seu lado, ao mesmo tempo, a razão e o amor. Não se importou com a estupidez alheia. Chegou na Bahia e continuou seus estudos, apoiado por sua companheira de todas as horas, na alegria e na dor, até que virou Defensor Público, para a sorte da população pobre baiana.
Não sei se em algum momento seus pais fraquejaram e pensaram que o inimigo era muito forte. De fato, era forte mesmo! Os dois lutavam contra milênios de machismo ( milênio é igual a mil anos Duda, muitas vezes os seus dedos da mão e do pé). Garanto, entretanto, que, ao ouvir o seu primeiro choro, todas as dúvidas acabaram. Eles viram, naquele momento, que tudo valeu a pena. Souberam que enfrentariam qualquer exército, para ter você com eles. Sua sorte é imensa, Duda, porque nasceu de um bravo amor e em uma casa na qual a igualdade não é uma palavra vazia. Você é uma conquista!
Tenho, contudo, uma preocupação, um tanto machista, quanto à sua formação. No Brasil, é muito importante escolher o time certo para torcer. Somos o país do futebol, sabe? Seus pais são cariocas e vibram por times diferentes, mas você será criada na Bahia, o que gera dois perigos.
O primeiro diz respeito à harmonia do casal. Na única vez em que vi os dois discutindo foi porque seu pai, flamenguista, fazia gozações com o Fluminense da sua mãe, ameaçado de rebaixamento. Isto pode causar um grande conflito no lar: a disputa sobre o time que você escolherá. Por outro lado, aqui na Bahia existe um glorioso time, que leva o nome do estado, têm títulos nacionais e outro muito sem graça, que nunca ganhou nada e não merece nem ter o nome citado aqui. Se você crescer sem escolher um deles, pode acabar definindo a preferência por simpatia pelo primeiro namoradinho.
Acontece que o time legal está em uma fase muito ruim e vários menininhos, ingênuos estão torcendo pelo time do mal. É possível que um desses coitados conquiste seu coraçãozinho. Isto seria catástrofe! Uma mancha terrível na personalidade de alguém tão especial!
Pensando nisto, escolhi seu presentinho, para o primeiro aniversário. Assim, você não desagrada o papai, nem a mamãe. Pelo contrário, homenageia os dois. Diz que escolheu um time tricolor, como o da mamãe e que, ao mesmo tempo, é o mais popular e maior campeão do estado, como o clube do papai. Pra completar, você conta que não queria um time com fama de vice, como são, no Rio, o Vasco e o Bota Fogo. Todos ficam contentes e orgulhosos!
Para completar, como mulher independente que será, ainda influenciará qualquer eventual paquerador desencaminhado, para que entre nos eixos e torça pelo time certo. Será mais uma quebra de paradigmas!
Espero que você goste da lembrancinha e coma muitos doces, na sua festinha. Não se assuste com os palhaços e com os balões estourando. Saiba que este foi só o primeiro ano de uma longa vida que será muito feliz, principalmente pelos pais maravilhosos que você possui. Cresça, espelhando-se neles e, fatalmente, será um grande exemplo, para todos.
Feliz aniversário e um beijo,
Tio Rafito.
Ps1: Se você não estiver convencida a torcer pelo esquadrão de aço, pelos argumentos expostos, preciso apelar e pedir que faça isto, para compensar aquela golfada, na minha camisa nova.
Ps2: Pede pro papai e pra mamãe me enviarem, por e-mail, uma foto sua, com o presente e dizendo se autorizam que eu coloque essa carta e a foto no meu blog.