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domingo, 4 de julho de 2010

O Brasil e a Copa dos Inimigos


Desde criança sou fanático por futebol e esportes em geral. Quando criança, não perdia um programa esportivo e adorava ler a Placar. A primeira vez que virei uma noite, foi assistindo às Olimpiadas de Seul, aos 08 anos. Uma bronca histórica que levei da minha mãe, foi quando, na mesma época, sai gritando pela casa, quando o meu Bahia de Bobô, que seria o campeão brasileiro, marcou um gol contra o São Paulo. É que a minha irmã, recém nascida, dormia, na hora e não gostou muito do barulho. Obviamente, tive o sonho de ser jogador, e depois comentarista. Não fui nada disto, mas agora tenho um blog e, desse modo, pela primeira vez, tenho o poder de publicar minha análise sobre a participação brasileira na copa! Não sei se alguém lerá, mas aí vai.

É impossível falar do Brasil em 2010, sem comparar com o Brasil em 2006. As duas seleções seriam opostas. A "seleção guerreira", de Dunga e da Brahma, foi moldada para se contrapor à seleção de estrelas desinteressadas que jogou na Alemanha. Durante muito tempo, os defensores da atual equipe disseram que ela era superior e os resultados provavam isto. Não era verdade. Tudo o que Dunga ganhou, Parreira também havia vencido (Copa América, Copa das Confederações e Eliminatórias). Com uma diferença, o time de Parreira ganhou os títulos jogando bem, enquanto o de Dunga vencia no sufoco.

Após a eliminação contra a França, em 2006, realmente se disseminou a explicação de que perdemos por falta de vontade. Nem parecia que Zidane e Henrry tinham jogado do outro lado, só não ganhamos porque os craques não quiseram. Os treinos eram todos transmitidos ao vivo e com a presença do público. Para completar, poucos dias após a eliminação, alguns jogadores teriam sido vistos em festas, o que foi considerado uma prova do descompromisso daqueles atletas. Começou a caça às bruxas. Os jogadores considerados mais talentosos foram execrados.

Este era o quadro quando Dunga foi escolhido. O capitão do tetra, um volante que marcava e gritava sem parar, simbolizava o oposto da imagem que se fazia do quadrado mágico. Ele foi contratado para construir um time de guerreiros. Ressalte-se, desde já, que não foi ele quem construiu o contexto, mas sim a imprensa. Nas suas primeiras convocações, Kaká e Ronaldinho Gaúcho, ficaram no banco. O meio campo titular tinha Daniel Cravalho e Elano. Até na numeração ele mexeu. Kaká deixou de ser o 8, Robinho deixou de ser o 7, Ronaldinho deixou de ser o 10.Todo mundo aplaudiu.

Desde o início estavam plantados os problemas que explodiram, na África do Sul. Algumas conclusões, naquela época foram completamente equivocadas, segundo o meu entedimento: 1) O Brasil não perdeu por falta de vontade, mas sim porque teve um bom adversário. 2) O Brasil não perdeu porque tinha jogadores talentosos, mas porque a França tinha jogadores talentosos. 3) A exposição excessiva dos treinos não é responsabilidade dos craques, mas sim dos dirigentes. 4) Não se pode, nem deve, exigir de ninguém que fique triste, por dias, devido a uma derrota no futebol. É até melhor que o atleta seja capaz de sorrir no dia do jogo, mostrando espírito esportivo.

O clima de guerra na Copa foi o resultado de todas as premissas equivocadas, fomentadas pela imprensa. A CBF fez uma leitura perfeita das reclamações e encontrou um treinador simbólico para atender à demanda. Ricardo Teixeira e jornalistas produziram Dunga. Ele já era assim e foi escolhido por ser assim. Se esperava dele a idéia de orgulho da pátria e luta até o fim. Até a sua convocação, embora criticada, reflete o clima pós-copa de 2006. Quem mudou de lado foi a mídia e não o técnico.

Para alimentar o espírito combativo dos seus soldados, Dunga exigia fidelidade, camaradagem, ordem e disciplina. Como qualquer instituição militar costuma fazer. Mais que isto, convenceu os soldados da existência de alguns inimigos, como toda a política de segurança pública ou segurança nacional faz, com apoio da imprensa. Assim como já foram os comunistas, já foram os terroristas, são hoje os traficantes. Para Dunga, existiram duas classes: a primeira, eliminada na convocação: "à dos craques que não ligam para a seleção". A segunda, ironicamente, foi a própria imprensa. Esta foi a surpresa. Talvez pela primeira vez, o setor que tanto trabalha para alimentar os estereótipos de viu incluído em um deles.

Não se pode dizer que foi por acaso. O trabalho dos jornalistas esportivos tem algumas características peculiares. As que mais me chamam atenção são a mistura entre informação e obrigação de torcer, informação e comércio e informação e desrespeito aos atletas e treinadores. Vou me fixar apenas na última.

Dunga chegou a chamar um jornalista de covarde e cagão de merda, durante uma coletiva, o que causou justa revolta. Mas, quantas vezes, os profissionais da imprensa dizem que um trienador é burro, um jogador é incapaz, ou ridículo? Para exemplificar, citarei um profissional que admiro bastante, Juca Kfoury. Seu comentário sobre o volante Felipe Melo, proferido no programa Linha de Passe da ESPN Brasil (meu canal favorito), no dia 02 de julho foi: "é um débil mental". Para mim, treinador e comentaristas foram igualmente ofensivos. Quem acompanha o esporte sabe que foi um caso isolado em relação ao Juca, mas não à imprensa.

Isto explica a grande aceitação pelos atletas do discurso do treinador. Assim como Dunga foi o técnico perfeito para as reclamações da imprensa, em 2006, a imprensa era um inimigo perfeito para a guerra de Dunga. O Brasil perder para a Holanda não é nenhuma catástrofe, assim como não foi perder para a França. O problema foi o precipitadíssimo desespero dos jogadores e a falta de opções para o treinador mudar o jogo. Os boleiros perderam o equilíbrio quando imaginaram que a pátria seria derrotada e seus inimigos venceriam. O técnico perdeu as opções ao excluir craques do grupo, por não se enquadrarem no perfil de soldados. O principal ausente, para mim, foi Ronaldinho Gaúcho, massacrado em 2006, pelo simples fato de não ter sido o melhor jogador do mundo, na Copa.

Preferia uma seleção que tivesse a possibilidade de encantar, com Kaká, Robinho, Ronaldinho Gaúcho, Ganso, mesmo que não jogassem todos ao mesmo tempo. Mas preferia ainda mais uma seleção pacífica, alegre. Espero que fique a lição: qualquer guerra deixa feridos, normalmente, dos dois lados e ser considerado inimigo é extremamente doloroso e revoltante.

Mais importante até do que lembrar disto no futebol, é lembrar disto na sociedade. Em 2014, os jogos serão aqui. Precisaremos resistir às exigências beligerantes da FIFA, que conseguiu interferir até na justiça penal da África do Sul, levando ao absurdo da implantação de julgamentos especiais, capazes de, em 03 dias, condenar alguém à 12 anos de prisão. A evidente irresponsabilidade retrata uma outra guerra, muito mais grave, contra o povo pobre de um país. Esta batalha deveria ter sido denunciada e criticada com todo o vigor, mas quase não se falou dela. Tomara que no Brasil o lema seja : "Uma Copa sem inimigos". Em todos os sentidos.


domingo, 27 de junho de 2010

Controle remoto judicial

Interessante, corajoso e digno texto de juiz potiguar. Vale para todos os juristas, especialmente os concurseiros.

Controle remoto judicial

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Valentão

Nosso simpático treinador, Dunga, é um personagem curioso. A cada entrevista coletiva, após os jogos, ele escolhe um momento para dar um sorriso provocativo e agredir os jornalistas. Mas, depois do jogo contra Costa do Marfim, superou-se.

Ele se irritou com esse sujeito aí, o Alex Escobar:

Fez a pergunta típica do adolescente que quer ameaçar o gordinho da turma: "Qual foi? Algum problema?" Não satisfeito, continuou agindo como o garoto forte que ameaça os mais fracos




O mais incrível é que ele não estava no meio da aula de geografia, mas em uma entrevista coletiva internacional! E também não tem 12 anos. Tem mais de 40! Na minha escola ele, no mínimo, iria para o SOE, além de levar bilhetinho para casa, para ser assinado pelos pais.

É por essas e outras que meu espírito na Copa está igual ao do Chico Bacon, do Galhardo.


sábado, 19 de junho de 2010

Justiça Relâmpago



Ultimamente, não tenho jogado vôlei, não tenho ido ao cinema e não tenho escrito no Blog. Meu tempo livre está sendo usado para a Copa do Mundo. Eu adoro futebol e só acontece de 4 em 4 anos.

Resolvi escrever rapidinho sobre algo que eu li na Folha de São Paulo do dia 18 de junho de 2010, páginas D22 e D23. É uma matéria intitulada "África do Sul testa ´Justiça relâmpago´". A reportegem fala que, por exigência da Fifa, foram criados tribunais especiais, para o julgamento de causas penais, com qualquer ligação mínima com a Copa ( desde a venda de ingressos a fatos ocorridos nos hoteis).

A característica principal desses tribunais é a super velocidade. O processo sobre fato mais grave até aqui, segundo a reportagem, foi um assalto a jornalistas estrangeiros. Em três dias, saiu a sentença: 12 anos de prisão.

É algo a se pensar. Em três dias, houve tempo para colher provas? Em três dias, houve tempo para se pensar em teses diversas das expostas pela polícia? Em três dias, há tempo para a Defesa ouvir o réu, entender a sua história e pensar na melhor forma de trabalhar? A tese da acusação já está construída assim que o processo começa, pois é a mesma da polícia.

Uma pena de prisão é uma sanção gravíssima. Doze anos é muito tempo! Uma decisão desse tipo deve ser muito bem pensada e se basear em uma certeza quase absoluta. É preciso dar oportunidade para a apresentação de todas as provas e ouvir todas as versões possíveis. Aplicar esta pena em 03 dias é uma tremenda irresponsabilidade.

O pior é que quem não está sendo punido adora a idéia do processo fast-food. O vice-ministro da Justiça da África do sul declarou à Folha que " é um modelo que queremos implantar de forma permanente". É o que Ferrajoli (o velhinho da entrevista dois posts abaixo) diz: estas leis temporárias que visam punir mais tendem a ficar para sempre.

Nunca vi prova tão explícita dos interesses econômicos determinando o Direito Penal. Quem determina a política criminal dos africanos é Federação Internacional de Futebol, com sede na Suiça (provavelmente pela tradição dos gringos com a pelota e não pela sua tradição bancária). Daqui a 04 anos teremos uma nova Copa. A Fifa deve fazer a mesma exigência. O próximo país nós já sabemos qual é: nosso querido Brasil! Veremos então se, e por que preço, nossos corpos serão vendidos.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

É Copa do Mundo, amigo.

O povo é criativo! Fizeram essa animação com lego, dos gols de Inglaterra e Eua.



Se quiserem, confiram abaixo os lances reais.

sábado, 29 de maio de 2010

Entrevista de Luigi Ferrajoli

Segue entrevista de um dos maiores juristas da atualidade, a universitários brasileiros. Gostei da cara de pau da estudante, no fim da entrevista. Eu teria feito o mesmo.

domingo, 23 de maio de 2010

Prova de Lógica


Questão 1.
Você tem um filho. Todo dia, o garoto leva de merenda para a escola um biscoito e um suco. Certa feita, ele te desobedece e você resolve puní-lo. O castigo funcionará assim: durante uma semana, ele não levará nada. Na semana seguinte, se tiver se comportado bem, ele levará só o biscoito. Na terceira, continuando a ser um bom menino, ele poderá finalmente levar também o suco.
Começando a aplicar o castigo, você viaja e pede a avó que cuide da criança. Explica que ele está sem merenda, mas esquece de dizer que na segunda semana ele já poderia levar o biscoito. Resultado, mesmo agindo direitinho, o garoto passa duas semanas com fome no recreio. Quando você volta, ele conta o que aconteceu e pede que o cardápio seja normalizado. O pobrezinho afirma que já teve um castigo maior do que devia.

O que você faz?

a) Fica com vergonha, pede desculpas e restabelece a merenda.
b) Fica com vergonha, pede desculpas, restabelece a merenda e ainda dá chocolates, para compensar o seu erro.
c) Diz que a etapa do castigo em que ele leva só o biscoito, mas não o suco, é fundamental, para o aprendizado. Por conta disto, além das 2 semanas sem levar nada, ele ainda ficará mais uma sem suco. Complementa lembrando que, embora a avó diga que ele não fez nada de errado, você não tem certeza se ele realmente fez tudo certo. Infelizmente, a pena foi agravada, sem culpa do menino, mas o problema é dele, pois é impensável saltar uma etapa do castigo.

Questão 2.


Você é um juiz. Está convicto de que quem comete um crime tem que cumprir uma pena, para aprender a agir de acordo com a lei. A pena funcionará assim: durante 1/6 do tempo, o preso fica em uma penitenciária, sem poder sair. É o regime fechado. Se tiver se comportado bem, ele cumpre mais 1/6 da pena, podendo sair por 7 dias, 5 vezes por ano, para ver a família. É o regime semi-aberto. Mantendo a boa conduta, ele passa a poder sair todo o dia, para trabalhar, tendo que voltar à noite e nos fins de semana.Começando a aplicar a pena, você, por qualquer motivo, esquece de um preso. Pode ser porque ninguém te lembrou, porque você tem muito trabalho, etc. Resultado, mesmo agindo direitinho, o rapaz cumpre 1/3 da pena (1/6 + 1/6), em regime fechado.

Quando se dá conta do que houve, o que você faz?

a) Fica com vergonha, pede desculpas e restabelece a normalidade da pena, deixando ele ir direto para o regime aberto.
b) Fica com vergonha, pede desculpas, restabelece a normalidade da pena, deixando ele ir direto para o regime aberto e ainda reduz o restante da sanção, para compensar o seu erro.
c) Diz que o regime semi-aberto é fundamental para a ressocialização. Por esta razão, além de ter ficado o dobro do tempo em regime fechado, o rapaz terá ainda que cumprir o semi-aberto, como se nada tivesse acontecido. Infelizmente, a pena foi agravada, sem culpa do preso, mas o problema é dele, pois é impensável saltar uma etapa do castigo.

Gabarito.
Questão 1.
Se você marcou "a", significa que é um pai ou mãe justo(a).
Se você marcou "b", significa que é um pai ou mãe muito justo(a).
Se você marcou "c", significa que é um pai ou mãe arrogante e um péssimo exemplo.

Questão 2.
Se você marcou "a", significa que é/seria um(a) juiz (a) justo(a).
Se você marcou "b", significa que é/seria um (a) juiz (a) muito justo(a).
Se você marcou "c", eu tenho quase certeza que é um juiz brasileiro, pois nunca vi ninguém fora desta categoria que visse lógica nesta escolha.

Questão extra!

Qual lição aprenderá o preso da questão 2, se o juiz escolher a alternativa "c"?

a) Que a sociedade é justa e fraterna.
b) Que a sociedade é justa e fraterna. Ele deve seguir as suas normas, para preservá-las.
c) Que as normas valem mais pra uns que para outros. A sociedade é injusta e não é nem um pouco fraterna. Esta mesma sociedade não se importa com ele , logo, não há porque seguir as suas normas.

Precisa de gabarito?